... uma história bonita tem sempre pessoas reais

Hoje escrevo-vos de coração cheio uma história que cruzou a minha história e a história de uma pessoa muito especial, a M... se acharem a história muito romantizada não o é, é real e não se encontram em livros do Pedro Chagas Freitas ou da Margarida Rebelo Pinto porque as histórias reais são mais bonitas, atravessam o imaginário e vivem-se no verdadeiro sentido da palavra.

Tudo começa nos corredores da Escola de Música do Conservatório Nacional, onde estudei durante praticamente quatro bonitos anos da minha vida. Pelos corredores ouvia-se música que ecoava das salas, violinos, harpas, trompetes, pianos e no corredor de canto, vozes líricas em construção. Mas nesses corredores entre quadros que eram verdadeiras relíquias também se partilhavam angústias, sonhos, brincadeiras e histórias... um dia, uns colegas alunos de uma professora que não era a minha falaram-me da filha desta e descreviam-na como alguém que irradiava luz, uma menina que era Surda, que tinha entrado no curso de Medicina, que era linda e que encantava todos à sua volta. Nunca tive a felicidade de a conhecer pessoalmente mas ia ouvindo histórias, até porque uma ex-professora minha já me tinha falado dela também porque me tinha aconselhado a sua mãe para minha professora. Isso não aconteceu, mas agora passados três anos a nossa história reencontrou-se.
Eu estou no último ano da licenciatura em Língua Gestual Portuguesa, uma língua pela qual me vou deixando enamorar e uma comunidade tão especial que tenho conhecido aos poucos. E é aqui que entra a M., ao ler um livro para um trabalho de uma disciplina cujo nome é "Cultura dos Surdos" leio um artigo escrito pelo pai da M. e constato que a menina de quem falava, a sua filha, era a M. Qual não é o meu espanto ao fazer esta descoberta que decido procurá-la no facebook. Ela aceitou-me mas eu nunca tive coragem de meter conversa com ela. Afinal o que lhe diria eu? Esperei. Achei que a vida ia proporcionar esse momento. 
Ontem reencontrei a minha melhor amiga que não via pessoalmente há longos meses. A C. ainda estuda canto e é uma cantora com uma voz doce, melodiosa e uma amiga como há poucas. No meio de tanta conversa para por em dia, falámos da mudança de rumo que dei à minha vida, das motivações que me levaram a deixar o canto e a música e a C. conta-me uma história do pai dela. Nessa história havia uma menina Surda na altura com cerca de 3 anos que se colava ao chão para ouvir a música que se fazia. 
Arrepiei-me da cabeça aos pés. 
Quando entrei neste curso não sabia o que era o silêncio. Hoje ainda não sei. A concepção de silêncio para nós ouvintes é muito diferente daquela que os Surdos têm, mas lembro-me de um dia ter dito numa aula que era possível os Surdos ouvirem de diversas formas e de até gostarem de música. Na altura até fui um pouco ridicularizada porque para muitos dos que me rodeavam o que tinha acabado de dizer era uma utopia ou algo muito difícil de conceber num país onde as barreiras sociais, educativas e pedagógicas ainda existem em demasia. 
Ainda hoje gosto de acreditar nesta possibilidade, e ontem decidi perder o medo e falei com a M. pelo chat. Ao ler as suas palavras dizendo que estava feliz por eu seguir este caminho e por poder transmitir o que toda a sua vida ela viveu entre o mundo ouvinte e o mundo surdo, paralisei. Cairam-me umas lágrimas pelo rosto. Dizia-me ela que não se sentia nem num mundo nem noutro, sentia-se numa espécie de limbo. 
E não será o nosso Mundo isto mesmo? Viver no limbo? Viver entre diferentes mundos, realidades e modos de vida?
Hoje acordei com a vontade de SER CAPAZ DE MAIS no nosso Mundo, seja ele qual for. 
Acho que não poderia ter escolhido melhor nome para este blogue, depois de ter decidido alterar o mesmo. 
Partilhei esta história sem revelar nomes porque esta história não é só minha, mas é real. Não é um romance, não é ficção... é a VIDA REAL.
E porque eu sou uma pessoa que acredita em Deus, acredito que ele já tinha isto tudo planeado e deixou que eu me surpreendesse e me deixasse encantar ainda mais pela vida depois das amarguras que ela já me deu.

Muitos sorrisos,
Cátia.

Comentários

  1. Muito bonito. Muito genuíno. Tal como a Cátia é e merece.

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  2. O que torna as histórias de autores lamechas e sensacionalistas chatas é muitas vezes o seu irrealismo (isso e a escrita sofrível :P) - histórias irrealistas reais são todo um outro nível :) A coincidência num filme é capricho de autor, é isso que lhe retira a 'piada'!

    Tenho alguma 'curiosidade' em relação a línguas gestuais, era uma coisa acerca do qual gostava de aprender um pouco um dia :)

    Acredito que seja impossível compreender plenamente como é a realidade para alguém que é surdo, mudo ou cego. Gostei da forma como colocaste o assunto, e que a M. reafirmou. Tens razão, trata-se de uma história muito bonita! Tudo de bom para ti e para a M. ;)

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    Respostas
    1. Obrigada querida Avelã :)
      Passaste no teste da "Língua vs linguagem" e "Surdo-mudo vs Surdo"... ;) um dia hei-de escrever sobre isto!
      Beijinhooo!*

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