A disciplina de EMRC na escola

Leio com frequência crónicas de opinião do DN, do Público e da Visão. 
Hoje de manhã, andava a vaguear pelo meu feed do facebook e deparo-me com esta crónica da Fernanda Câncio, o título chama-me a atenção, abro e leio a crónica que também podem ler aqui
Eis a minha opinião: vivemos num estado laico e nenhuma religião nos deve ser imposta, no entanto, somos um país com tradição maioritariamente católica, e por isso mesmo nas escolas ainda se mantém a disciplina de EMRC (Educação Moral Religiosa Católica). 
Não é obrigatória, e para além disso é colocada no horário das turmas no início ou no fim das aulas, o que leva muitos alunos a nem sequer a escolherem porque querem sair mais cedo ou dormir mais de manhã. 
A disciplina de EMRC muito pouco tem de catolicismo, as minhas aulas sempre foram mais de ética e cidadania e era o lugar onde se debatiam assuntos como a eutanásia (tal como a autora refere na crónica) e se incentivava o pensamento crítico, nomeadamente no ensino secundário. Hoje, a minha irmã está no secundário e acontece exactamente o mesmo. 
Lembro-me de ter colegas na disciplina que nem sequer eram católicos, ou andavam na catequese. Tinham moral porque gostavam das aulas, por isso acho esta crónica pouco pertinente e de quem não está no "terreno" para ver de facto como é a realidade das escolas. 
Tenho dito. E porque a fé se demonstra mais com actos do que com palavras, deixo-vos esta frase.
Uma excelente semana para todos!*



Muitos sorrisos, 
Cátia.

Comentários

  1. Olá! Vim finalmente espreitar o teu site :) Está muito giro, gostei de conhecer o teu histórico nisto dos blogs! Eu sou uma fraquinha, só tive mesmo um. Quer dizer, houve um (anterior) em que me entretinha a publicar cartoons que encontrava pela internet, mas tinha uns 8 anos e não conta :D

    Tinha de comentar este post, porque a minha perspetiva é um pouco diferente :) Honestamente - possivelmente influenciada pela minha experiência pessoal -, eu não 'concordo' com a existência dessa disciplina. Havendo tradição e maioria católica ou não, acredito que, dentro do possível, o ensino deva ser dissociado da religião (ou melhor, das crenças religiosas - obviamente, a religião é relevante em termos históricos e culturais).

    Não sei se isso agora mudou, mas quando eu tive a disciplina ela ficava inserida no meio do horário; a maioria dos pais inscrevia os filhos porque preferia que eles estivessem dentro de uma sala de aula para evitar que fizessem asneiras, e quem não se inscrevesse tinha uma hora vazia entre outras aulas (durante a qual nem tinha grande companhia, devido ao ponto prévio :P). Para além disso, faziam-se visitas de estudo em nada relacionadas com EMRC (ou seja, não eram os museus chatinhos de história ou igrejas, mas sim jardins zoológicos e parques temáticos ou festas) que acabavam por servir como fator de exclusão para quem não assistisse às aulas. Por fim, não acho que a questão resida no seu ser opcional ou não, mas sim em se deve existir (de todo) ou não.

    Se a defesa da manutenção da disciplina se baseia em que esta 'muito pouco tem de catolicismo', então acho que faria sentido na mesma aboli-la, substituindo-a por filosofia (que poderia perfeitamente ser introduzida mais cedo do que é, embora talvez noutros moldes), alguma disciplina relacionada com cidadania e ética (penso que chegou a existir algo como 'formação cívica') ou, e isso aceito mais facilmente, uma disciplina sobre religiões no geral (no entanto, acho que bastava reforçar o programa de história no sentido de criar uma maior consciência em relação às religiões, se necessário - ainda que não saiba como o programa funciona atualmente). Aliás, acho que bastaria cortar a última (eventualmente as duas últimas) palavra para que a disciplina ficasse mais adequada: pelo menos 'em teoria' ficava :P Claro, isto é um pouco idealista, uma vez que a maioria dos professores estaria de qualquer das formas 'polarizado', mas acho que é mais correto do que EMRC.

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  2. As minhas aulas, bem como as de com quem falei acerca disso, centravam-se também com alguma frequência em questões de ética, mas eram leccionadas segundo uma perspetiva parcial e conservadora. Falando-se de eutanásia, o único argumento era 'a vida é sagrada' (e a própria conclusão era igual :P); falando-se de IVG, o argumento era basicamente o mesmo. Junto com o recurso ao 'pathos' retórico - os professores discursavam sobre como o embrião das 3 semanas já gritava e agitava os braços enquanto o matavam cruelmente, bem como sobre outras coisas igualmente científicas. Também foi dito na aula que se as pessoas tinham 'responsabilidade' para ter relações sexuais a deveriam ter para ter os filhos que daí resultassem, e fazia-se frequentemente uma abordagem anti métodos contracecionais. Para além de algumas teorias da conspiração desinformadas e inadequadas. Enfim, coisas que eu não acho que devam ser ditas a miúdos influenciáveis... E não tive apenas um professor. Claro, a culpa disto não é apenas da disciplina em si, mas esta é particularmente propensa a este tipo de situações (devido a quem a lecciona, ao seu teor e mesmo à não existência de avaliação externa ou significativa, em parte por ser de caráter facultativo).

    Não pretendo com isto contrariar-te, apenas tentar mostrar que quem diz que EMRC não deveria existir não está necessariamente desligado da realidade - eu não tive essas aulas há tantos anos assim, e quem as deu continua com toda a certeza a dar, pelo que o 'testemunho' continua atual. Para mais, não acho que seja essencial conhecer a realidade das escolas para discutir este assunto. A minha experiência (que classifico como má) vale tanto como a tua (que claramente, e acredito que com razões para isso, consideras boa) - ambas são irrelevantes quando se quer concluir sobre como funcionam as aulas a nível nacional, e dificilmente poderemos saber o que se passa em cada escola do país generalizando a partir da amostra minúscula que é o que se passou nas nossas.

    Mesmo que não tivesse tido as aulas seria contra: se o objetivo é converter ao catolicismo acho que é errado, se o foco é na moral/ética acho que é desnecessário (e errado na mesma) haver uma unidade curricular que é parcial em relação à religião e que - não só por isso - tende a ser leccionada de uma forma facciosa.

    Pronto, já fiz um comentário estupidamente gigantesco :P Beijinhos :)

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    Respostas
    1. Estando eu dentro do ramo da educação, isto dos programas curriculares têm todos os seus problemas. Assim como os professores e metodologia pedagógica não são as mesmas. Confesso que tiveste muito azar na tua vida escolar porque os meus profs de EMRC sempre foram dos melhores que tive. E não íamos ao Zoo, íamos a sítio com sentido e que incentivavam a partilha de opiniões e a partilha de vivências tão importantes na adolescência.
      Mas pronto, este tema tem pano pra mangas e acho que deixei a minha opinião bem clara. Se por um lado sou de acordo com a existência de uma disciplina parecida com Formação Cívica, a verdade é que disciplina tinha de tudo menos disso. É preciso existir regras e um programa curricular comum a todos e a todas as escolas, o que não acontecia.
      Mas respeito a tua opinião. São as tuas vivências.

      Beijinhos!*

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